Irmãos Carlos, Juanjo e Lucía Cerdán, da Bodega Cerrón.

Bodega Cerrón: herança, altitude e terroir único em Jumilla

Para quem é apaixonado por vinhos espanhóis artesanais, a Bodega Cerrón é um projeto que une inovação, sustentabilidade e tradição. Fundada há mais de um século na pequena aldeia de Fuente Álamo, na província de Albacete, a propriedade é conduzida pela quarta geração da família Cerdán. 

Em Jumilla, uma prestigiada Denominação de Origem Protegida (DOP), a vinícola vem redefinindo o perfil dos rótulos locais ao produzir vinhos elegantes, frescos e expressivos, que se distanciam do estilo concentrado e pesado que marcou a região no passado.

Mas qual filosofia orienta suas produções e quais são as principais variedades cultivadas por ali? É justamente isso que vamos explorar a seguir.

A história da Bodega Cerrón

A história da Bodega Cerrón começou em Fuente Álamo, em 1895, quando o bisavô Francisco Cerdán identificou as peculiaridades dos solos calcários da região. Ali, plantou as primeiras vinhas em encostas íngremes, cujo acesso e inclinação ainda hoje representam desafios para o trabalho no campo.

Inicialmente voltada à produção de vinhos comercializados em barris no mercado local, a vinícola começou a transformar sua atuação na década de 1990. Em 1995, tornou-se a primeira vinícola da Espanha a obter a certificação orgânica, abraçando práticas sustentáveis em um momento em que o setor ainda priorizava grandes volumes de produção. Desde então, a propriedade também adota a viticultura biodinâmica.

Sob o comando dos irmãos Carlos, Juanjo e Lucía Cerdán, viticultores e enólogos da quarta geração, o legado familiar foi preservado e, ao mesmo tempo, modernizado. Mantendo o respeito ao terroir como princípio, eles conduzem cerca de 65 hectares, distribuídos em mais de 140 parcelas, com foco na mínima intervenção.

“São vinhos deslumbrantes, bastante diferentes de qualquer outro que eu já tenha experimentado de Jumilla.” — Jamie Goode, crítico de vinhos britânico

Como surgiu o projeto Stratum Wines?

Lançado em 2011 por Juanjo Cerdán, o Stratum Wines representa o ápice da herança familiar da Bodega Cerrón. O nome faz referência aos estratos geológicos que definem os solos de Jumilla e traduz uma nova maneira de interpretar o potencial vitivinícola da região, conectando a tradição a uma visão contemporânea dos vinhos do Velho Mundo.

O objetivo do projeto é preservar o patrimônio vegetal local por meio da recuperação de pequenos vinhedos centenários. Alguns pertencem à própria família, enquanto outros haviam sido abandonados devido à baixa produtividade e às dificuldades de manejo.

Entre as parcelas recuperadas estão El Cerrico, La Servil e Los Yesares, situadas entre 800 e 980 metros de altitude, nas áreas mais altas da região. Muitas dessas vinhas têm mais de 80 anos e guardam um patrimônio de variedades e práticas vitícolas que poderia ter se perdido com o passar do tempo.

“Acredito que, conforme o tempo passa e você se dedica mais ao campo, ele te devolve o melhor. Por isso, queremos deixar para as próximas gerações um patrimônio ainda melhor do que aquele que encontramos.” — Carlos Cerdán

Há ainda um fato curioso: devido à alta presença de areia em partes desses solos, muitos vinhedos resistiram à filoxera, praga que devastou grande parte das vinhas europeias no século XIX. É daí que vem o raro patrimônio de vinhas velhas em pé franco, ou seja, cultivadas sobre as próprias raízes, sem enxertia.

O terroir único de Jumilla

Para entender Jumilla, é preciso considerar a diversidade de sua denominação de origem. A região reúne vinhedos em diferentes altitudes, que vão de aproximadamente 320 metros até quase 1.000 metros acima do nível do mar. 

Essa amplitude cria uma variedade de condições de solo, exposição e clima, que se refletem diretamente no perfil dos vinhos. Por isso, como diz Carlos: “há muitas Jumillas dentro de Jumilla.”

Mais especificamente, Fuente Álamo — onde fica a sede do produtor — destaca-se por abrigar algumas das áreas mais altas de toda a DOP Jumilla. Nessas altitudes, predominam os solos calcários, cuja riqueza geológica favorece o cultivo de diferentes variedades de uvas com excelente expressão e frescor.

Geografia, solo e clima de altitude

Embora os solos da denominação sejam majoritariamente calcários, castanhos e pedregosos, também se destacam parcelas compostas por areia e argila, além de frações de quartzo e sílex.

Em geral, esses terrenos apresentam uma crosta calcária dura e, apesar da aparência árida, são capazes de reter água nas camadas subterrâneas mais profundas. Isso permite que as videiras atravessem longos períodos de estiagem, o que é essencial para a identidade e a resiliência do terroir local.

Na Bodega Cerrón, os vinhedos de altitude estão situados em encostas orientadas ao norte. Uma escolha estratégica que favorece a maturação gradual e equilibrada das uvas.

As noites frias de montanha ajudam a preservar a acidez natural e o frescor, enquanto os dias ensolarados e ventosos contribuem para a concentração de aromas e sabores, resultando em vinhos de notável harmonia e estrutura.

Variedades emblemáticas

A Monastrell é a principal variedade da região e tem papel central na identidade dos vinhos do produtor. Bem adaptada ao clima seco de Jumilla, encontra nos solos calcários e nas altitudes de Fuente Álamo condições para revelar diferentes nuances. 

Além dela, a Bodega Cerrón também trabalha com castas tintas tradicionais, como Garnacha, Moravia Agria, Forcallat e Rojal. Já entre as variedades brancas, a Airén é a protagonista, acompanhada por Macabeo e Chardonnay.

Isso permite ao produtor explorar diferentes expressões de Jumilla, respeitando as características de cada parcela e preservando a identidade de suas castas tradicionais.

Viticultura orgânica e precisão enológica

O compromisso da Bodega Cerrón ultrapassa o cultivo orgânico e biodinâmico: trata-se de uma defesa ativa da biodiversidade e do patrimônio genético de Jumilla. 

Ao priorizar variedades nativas e vinhas velhas em pé franco, em vez de clones padronizados, o projeto Stratum Wines assumiu um papel central na redefinição da região, ajudando-a a migrar do vinho a granel para vinhos de grande elegância, frescor e profundidade mineral.

Na vinícola, essa visão se reflete em uma enologia purista e minimalista. A intervenção é reduzida ao essencial: o carvalho é sutil ou ausente, e as fermentações acontecem em ânforas, tonéis de carvalho usados ou tanques de concreto.

Essa escolha permite que a textura, a pureza da fruta e a identidade geológica das parcelas sobressaiam sem maquiagem, resultando em vinhos precisos e fiéis à sua origem.

Leia também: Por que os vinhos artesanais não estão nos supermercados?

Descubra os vinhos da Bodega Cerrón

Você pode encontrar os vinhos da Bodega Cerrón e do projeto Stratum Wines no catálogo da Cellar Vinhos. Nossa curadoria reúne mais de 1.500 rótulos de pequenos produtores de diferentes regiões do mundo, selecionados por sua autenticidade, qualidade e capacidade de expressar a origem de cada vinho.

Com uma equipe de especialistas e uma relação próxima com as vinícolas, buscamos oferecer mais do que uma seleção de rótulos. Compartilhamos conhecimento sobre produtores, regiões e estilos para ajudar você a descobrir novos vinhos e encontrar aqueles que fazem sentido para o seu momento.

Clique aqui e explore os vinhos do produtor. 

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