Vinhedos de Syrah em terraços nas encostas íngremes do Rhône Norte, na França

Syrah e Shiraz: a mesma uva em dois estilos diferentes

Duas formas de escrever no rótulo, uma mesma uva e um universo de aromas e sabores para descobrir. A Syrah, conhecida como Shiraz na Austrália, é uma das castas tintas mais versáteis e complexas do mundo, e sua expressão mais clássica nasce no Vale do Rhône, no sudeste da França.

Ali, entre encostas íngremes e solos pedregosos, ela dá origem a vinhos marcados por frutas escuras, pimenta-preta, violeta e ervas, com frescor e estrutura para evoluir por muitos anos. Já a Shiraz australiana ficou conhecida por um estilo mais quente, de fruta madura e grande concentração.

Mas a diferença não se resume ao nome. Essa é uma história sobre clima, solo e tradição, que mostra como uma mesma variedade pode surpreender na taça de maneiras bem diferentes.

Syrah e Shiraz: a história por trás dos nomes

Embora os nomes sejam diferentes, Syrah e Shiraz são a mesma variedade de uva tinta. O primeiro está ligado à França, sobretudo ao Vale do Rhône, onde a uva é cultivada há séculos. O segundo se tornou uma marca da identidade vitivinícola australiana.

Existe também uma história curiosa sobre a origem do nome: durante muito tempo, a variedade foi associada à cidade de Shiraz, no Irã, e outra lenda a ligava a Siracusa, na Sicília. Nenhuma dessas origens foi comprovada. No fim dos anos 1990, estudos genéticos identificaram a Dureza (tinta) e a Mondeuse Blanche (branca), duas variedades francesas, como suas progenitoras. Ou seja, a Syrah é francesa de nascimento.

A trajetória da uva ganhou um novo capítulo em 1832, quando o viticultor James Busby levou estacas de variedades europeias para a Austrália. A Syrah se adaptou bem ao país e, com o passar do tempo, conquistou um lugar de destaque entre as tintas australianas. Foi nesse cenário que o nome Shiraz se consolidou.

Hoje, os dois nomes carregam referências culturais e tradições de produção distintas. E é justamente quando observamos as condições de cultivo e o estilo de cada região que as diferenças ficam mais interessantes.

O que muda entre Syrah e Shiraz na taça?

A personalidade de um vinho começa no vinhedo, já que temperatura, incidência solar, altitude e composição do solo influenciam a maturação das uvas e a formação dos aromas. As escolhas feitas na vinícola completam esse conjunto, da fermentação ao recipiente de vinificação.

No Rhône Norte, de clima mais fresco, a Syrah costuma preservar uma acidez salivante e revelar aromas de pimenta-preta, ervas, violeta e frutas escuras frescas. Os taninos tendem a ter estrutura firme, criando vinhos que combinam intensidade aromática, frescor e grande potencial de guarda.

Já nas áreas mais quentes da Austrália, a Shiraz frequentemente ganha corpo opulento, taninos macios e notas de frutas negras maduras, por vezes com nuances de chocolate e especiarias doces.

Vale ressaltar que esses perfis são referências, não regras. A riqueza da variedade está justamente na capacidade de traduzir diferentes terroirs, e poucos lugares fazem isso com tanta precisão quanto o Rhône.

Syrah na França: a expressão do Vale do Rhône

O Vale do Rhône, no sudeste da França, acompanha o curso do rio desde Vienne até Avignon e se divide em duas partes bem distintas.

No Rhône Norte, a Syrah é a única uva tinta das denominações, algumas das quais autorizam uma pequena proporção de uvas brancas no corte. A paisagem é marcada por encostas íngremes, terraços estreitos e solos que variam entre granito, xisto e outras formações rochosas.

No Rhône Sul, de clima mediterrâneo, ela divide espaço com Grenache, Mourvèdre e outras variedades, aportando cor, estrutura e notas especiadas aos cortes de denominações como Châteauneuf-du-Pape e Gigondas.

Côte-Rôtie, Hermitage e Cornas estão entre as denominações mais reconhecidas do Rhône Norte, ao lado de Saint-Joseph e Crozes-Hermitage. Cada uma revela uma interpretação própria da uva, seja pela expressão aromática, pela estrutura dos taninos ou pelo potencial de guarda.

Côte-Rôtie: perfume e elegância

Em Côte-Rôtie, os vinhedos cultivados nas encostas íngremes e nos solos de xisto da margem direita do Rhône dão origem a vinhos expressivos, elegantes e perfumados, marcados por aromas de frutas vermelhas e escuras, pimenta, ervas e notas florais. Por vezes, esse perfil é acentuado pela cofermentação com uma pequena proporção da uva branca Viognier (até 20%, pelas regras da denominação).

Hermitage: profundidade e potencial de guarda

Na colina de Hermitage, a diversidade de solos, com destaque para o granito na porção oeste, dá origem a tintos profundos e estruturados. Com notas de frutas escuras, pimenta e toques terrosos, são vinhos de mineralidade marcante e excelente potencial de guarda, que revelam grande complexidade ao longo dos anos. No entorno da colina, a denominação Crozes-Hermitage oferece uma leitura mais acessível e jovem da Syrah local.

Saint-Joseph: frescor e versatilidade

Estendendo-se por cerca de 60 km ao longo da margem direita do rio, Saint-Joseph tem vinhedos majoritariamente em solos graníticos. A denominação produz tintos de fruta viva, pimenta e taninos finos, em geral prontos para beber mais cedo do que os de seus vizinhos mais famosos, sem abrir mão da tipicidade do Rhône Norte.

E a Shiraz australiana?

Na Austrália, a Shiraz se tornou uma das principais expressões do vinho tinto do país. Regiões quentes como Barossa Valley, no estado de South Australia, consagraram o estilo mais conhecido: vinhos encorpados, de fruta madura e grande concentração.

Em áreas mais frescas e de maior altitude, porém, surgem versões mais especiadas e tensas, que se aproximam do perfil do Rhône. Não por acaso, alguns produtores australianos passaram a usar o nome Syrah no rótulo justamente para sinalizar esse estilo.

Uma mesma uva com diferentes histórias para contar

Da França à Austrália, a Syrah, ou Shiraz, é a prova de que uma variedade pode ganhar identidades bem diferentes sem perder sua essência.

Mas é no Vale do Rhône que ela encontra sua expressão mais clássica: vinhos que combinam elegância, frescor e profundidade, capazes de evoluir por muitos anos e de revelar, em cada denominação, um pouco do terroir de onde vieram.

Por isso, na próxima vez que encontrar esses dois nomes no rótulo, observe a região de origem e deixe que os aromas, sabores e a personalidade do vinho contem o restante da história.

Para complementar a leitura: confira o vídeo sobre Syrah e Shiraz com o nosso consultor de vinhos, Bruno Sias (@bruno.sias):

 

Total
0
Shares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anterior
Jean-Louis Chave: o Rhône Norte em suas diferentes expressões
Jean-Louis Chave

Jean-Louis Chave: o Rhône Norte em suas diferentes expressões

O que faz de Hermitage um dos terroirs mais cobiçados do Rhône Norte?

Você também pode gostar