ada de baby Barolo, os vinhos de Piero Busso são incríveis por eles mesmos
Quando o assunto envolve os grandes vinhos tintos do norte da Itália, o nome Barbaresco frequentemente surge associado ao seu vizinho mais famoso, o Barolo. Contudo, classificar os rótulos produzidos por Piero Busso como meros “baby Barolos” é um erro crasso e uma injustiça sensorial.
Afinal de contas, os vinhos dessa vinícola familiar são absolutamente incríveis por si mesmos, entregando uma identidade singular, vigorosa e que brilha com luz própria no cenário enológico mundial.
A história dessa vinícola icônica começou a se desenhar na década de 1950. Naquele período, Guido Busso foi o grande responsável pela aquisição das primeiras terras na renomada região de Barbaresco, situada no coração do Piemonte.
Com o passar das gerações, transmitiu-se esse legado de paixão pela terra com maestria. Atualmente, seu filho Piero e seu neto Pierguido são os verdadeiros responsáveis pela produção de rótulos intensos, complexos e autênticos, desenvolvidos no coração da célebre localidade de Neive.
Compreendendo a Denominação de Origem Barbaresco DOCG
Para entender a grandiosidade do trabalho da família Busso, precisamos primeiramente compreender a relevância de sua localização geográfica. A região de Barbaresco conquistou o status oficial de Denominação de Origem Controlada e Garantida (DOCG) em 1980. Isso significa que ela detém a mais alta patente de qualidade e regulamentação na produção de vinhos italianos, um selo que atesta a excelência técnica e a tipicidade do produto.
Geograficamente, a zona de produção de Barbaresco está dividida em três municipalidades principais: a comuna que leva o mesmo nome da denominação (Barbaresco), além de Neive e Treiso (com uma pequena porção também em San Rocco Seno d’Elvio).
Nessas áreas, os solos são majoritariamente compostos por marga rica em calcário e argila, uma combinação geológica que confere aos vinhos uma finesse tânica impressionante. Além disso, os vinhedos encontram-se estrategicamente situados em colinas íngremes que possuem, em sua grande maioria, a face voltada para o sul, maximizando a exposição solar das videiras.
A Uva Nobre e as Diferenças de Clima
Como era de se esperar em uma região tão tradicional, os produtores focam a produção 100% na uva Nebbiolo, a rainha incontestável do Piemonte. Apesar disso, você ainda encontra pequenas parcelas de vinhedos dedicados às castas nativas Dolcetto e Barbera dentro das propriedades locais.
Embora compartilhe a mesma matéria-prima com o Barolo, o terroir de Barbaresco apresenta particularidades climáticas cruciais. Por estar localizado um pouco mais próximo do curso do rio Tanaro, o clima da denominação é ligeiramente mais quente e marítimo. Consequentemente, as uvas Nebbiolo tendem a amadurecer um pouco mais cedo aqui do que na zona vizinha.
Dessa forma, os vinhos de Barbaresco entregam uma qualidade de fruta marcadamente mais madura e expressiva no nariz. Embora a acidez e os taninos continuem sendo elevados, esses exemplares costumam ser reconhecidos por serem significativamente mais perfumados, sedutores e acessíveis na juventude do que os potentes exemplares de Barolo.
As Rígidas Regulamentações de Produção da DOCG
A busca pela perfeição na produção de um Barbaresco DOCG não é uma escolha opcional, mas sim uma exigência legal da legislação italiana. De acordo com os regulamentos oficiais da denominação, existem regras estritas de envelhecimento que precisam ser seguidas antes que qualquer garrafa chegue ao mercado consumidor:
- Barbaresco Clássico: O vinho deve envelhecer por um período mínimo de 26 meses antes de sair para a venda, sendo que o líquido deve estagiar obrigatoriamente por pelo menos 9 meses em madeira.
- Barbaresco Riserva: Para os lotes que recebem essa designação especial, o tempo total de envelhecimento sobe para 50 meses, mantendo a obrigatoriedade mínima de 9 meses em contato com a madeira.
Ademais, os produtores não podem disponibilizar o Barbaresco para venda antes do dia 1º de janeiro do terceiro ano subsequente à colheita das uvas. No caso da versão Riserva, esse prazo se estende para o quinto ano após a safra. Essas regras de maturação lenta garantem que os taninos potentes da Nebbiolo passem pelo processo de polimerização e amaciamento ideal.
A Filosofia de Cultivo e os Vinhos de Piero Busso
Dentro desse universo regulamentado, a família Busso se destaca como uma das mais renomadas, puristas e respeitadas de Neive. Como mencionamos anteriormente, o patriarca Guido Busso foi quem plantou as primeiras vinhas da família no icônico Cru Albesani em 1948.
Com o avanço do trabalho familiar e a busca constante por parcelas de solo com identidades únicas, hoje os Busso são proprietários orgulhosos de vinhedos localizados em quatro dos Crus mais celebrados de Barbaresco:
- Albesani (Neive): O berço da vinícola, onde as vinhas velhas entregam vinhos profundamente concentrados, verticais e com excelente potencial de guarda.
- Mondino (Neive): Localizado na colina de Bricco Mondino, gera vinhos mais frutados, abertos e com taninos sedosos, ideais para introduzir o consumidor ao estilo da casa.
- Gallina (Neive): Um terroir que costuma produzir vinhos redondos, plush e imensamente elegantes.
- San Stunet (Treiso): A única parcela da família fora de Neive, caracterizada por entregar um vinho tenso, fresco, vertical e repleto de notas de especiarias.
Viticultura Orgânica e Vinificação Respeitosa
No vinhedo, todas as videiras da vinícola Piero Busso recebem um tratamento estritamente sustentável. Consequentemente, o manejo é feito de forma 100% orgânica, tendo conquistado a certificação oficial em 2019. Todo o trato das videiras ocorre de maneira estritamente manual, sendo conduzido principalmente pelos próprios membros da família, que conhecem cada centímetro de suas colinas.
Posteriormente, na época da colheita no outono, as uvas são colhidas rigorosamente à mão em pequenas caixas plásticas e levadas imediatamente para a adega. Na cantina, a fermentação alcoólica acontece com o uso exclusivo de leveduras indígenas (nativas da própria casca da uva), sem a introdução de aditivos químicos comerciais.
Essa fermentação geralmente ocorre em tanques de aço inoxidável com controle térmico rigoroso para preservar o frescor aromático da fruta. Logo após esse processo, os vinhos seguem para os grandes e tradicionais tonéis de madeira inerte de carvalho esloveno, os famosos botti.
Como esses recipientes gigantes variam entre 1.000 e 20.000 litros, o vinho ganha complexidade e estrutura através de uma micro-oxigenação lenta, sem sofrer a interferência agressiva de aromas de baunilha ou tostado que as barricas pequenas costumam aportar. O amadurecimento, por fim, segue à risca as rígidas regras estabelecidas pela DOCG.
Em suma, abrir uma garrafa assinada por Piero Busso significa degustar a história líquida de Neive. Seja pela pureza da fruta ou pela precisão de seus taninos, a vinícola prova que o Barbaresco não deve viver à sombra de nenhuma outra denominação, pois ele representa a realeza do vinho piemontês por mérito próprio.
Os rótulos de Piero Busso na Cellar
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