castas portuguesas.

Malvasia de Colares: conheça a uva dos vinhos de areia de Portugal

Entre as castas portuguesas que carregam uma história diretamente ligada ao lugar onde são cultivadas, a Malvasia de Colares ocupa um espaço especial. 

Tradicionalmente cultivada na região de Colares, em Sintra, a variedade está associada aos solos arenosos junto ao Atlântico, às vinhas conduzidas próximas ao chão e a uma viticultura marcada pela forte influência marítima.

Hoje é uma das grandes referências históricas do vinho português e dá origem a vinhos brancos de perfil fresco, frutado, floral e complexo.

Mas o que exatamente torna essa uva tão única?

Uma uva que quase ficou no passado

A relação de Colares com a viticultura é antiga, mas foi em 1908 que a região ganhou sua demarcação oficial, consolidando o reconhecimento de seus vinhos e de um terroir com características muito próprias.

Algumas décadas antes dessa demarcação, a viticultura europeia enfrentou uma de suas maiores crises. Na segunda metade do século XIX, a filoxera chegou a Portugal — o primeiro registro é de 1865, no vale do Douro — e devastou grande parte dos vinhedos do país. Em Colares, porém, a história tomou outro caminho:

  • Proteção natural: as vinhas plantadas nos solos arenosos permaneceram protegidas da praga. A areia dificultava a penetração da filoxera no solo e ajudou a preservar essas vinhas.
  • Preservação em pé-franco: graças às características desses solos, Colares conseguiu preservar vinhas em pé-franco, videiras cultivadas sobre suas próprias raízes, sem a necessidade de enxertia em porta-enxertos americanos.

Enquanto grande parte da Europa precisou reestruturar seus vinhedos por meio da enxertia, Colares conseguiu preservar parte dessa forma de cultivo. Ao longo das décadas seguintes, contudo, a área cultivada diminuiu, o interesse de muitos agricultores migrou para uvas mais populares e a preservação da Malvasia de Colares passou a depender cada vez mais de produtores dispostos a manter essa tradição.

Onde a areia muda a forma de fazer vinho

Entre a serra e o oceano, Colares reúne condições que tornam o cultivo da vinha bastante particular: ventos marítimos constantes, alta umidade e diferentes tipos de solo. 

Assim, a região é marcada principalmente por duas formações:

  • Chão de areia: camadas de areia recobrem materiais consolidados e, em profundidade, existe um horizonte argiloso onde as raízes das videiras se desenvolvem. A condução é tradicionalmente rasteira, próxima ao chão, com as plantas protegidas da força dos ventos por estruturas de cana. Durante o amadurecimento, os cachos também precisam ser protegidos do escaldão.
  • Chão rijo: Encontrado em áreas mais interiores da região, apresenta solos de natureza argilo-calcária. A Malvasia de Colares também é cultivada nesses terrenos.

A areia é o capítulo mais conhecido dessa história, mas a diversidade de solos mostra que a expressão da casta não se resume apenas às dunas.

Uma casta feita para esse lugar

A Malvasia de Colares apresenta uma característica incomum: sua presença geográfica é extremamente concentrada. Tradicionalmente cultivada em Colares, ela permanece quase exclusivamente ligada a essa região.

Agronomicamente, trata-se de uma casta branca rústica, de produtividade baixa a moderada, capaz de suportar as condições marítimas do território. Seu cultivo exige atenção constante, desde a condução rente ao solo até a proteção dos cachos contra a insolação.

Tudo isso ajuda a explicar a relação tão próxima entre a variedade e Colares. Aqui, conhecer a uva significa também entender as condições em que ela é cultivada.

Mas talvez seja no vinho que essa identidade fique mais evidente.

E o que essa história revela na taça?

Na taça, a Malvasia de Colares apresenta cor citrina e combina aromas frutados e florais. Em boca, mostra complexidade, com presença de mineralidade e, em alguns exemplares, notas tropicais.

Para resumir esse perfil:

  • Visual: cor citrina;
  • Aromas: notas frutadas e florais;
  • Paladar: complexidade e presença de mineralidade;
  • Em alguns vinhos: aparecem também notas tropicais.

Esse perfil varia de acordo com o local de cultivo, as características da safra e as escolhas feitas durante a vinificação. Uma Malvasia cultivada no chão de areia pode apresentar nuances diferentes daquela cultivada no chão rijo. 

A identidade da casta permanece, mas o lugar e o trabalho do produtor ajudam a definir como ela chega à taça. E é aí que a história fica ainda mais interessante: conhecer a Malvasia de Colares também é conhecer quem está cultivando essa variedade hoje.

Quinta de San Michel: uma nova história para a Malvasia de Colares 

Um dos projetos que hoje trabalha com as castas tradicionais da região é a Quinta de San Michel, localizada em Janas, no concelho de Sintra.

O projeto começou em 2013, com 2 hectares de vinha plantados com Arinto e Malvasia de Colares. Em 2023, a propriedade iniciou uma expansão de mais 5 hectares, chegando aos atuais 7 hectares, dos quais 2,5 são dedicados às castas principais da região, Malvasia de Colares e Ramisco, plantadas nos solos arenosos característicos de Colares. A maior parte da vinha, no entanto, está em solo argilo-calcário, o chamado chão rijo. A fim de obter vinhos ainda mais singulares, a propriedade vinifica algumas castas em conjunto, dando origem a rótulos como o Malvarinto de Janas, um blend de Malvasia e Arinto, como o nome sugere. 

No Malvasia 2023, a variedade aparece em outra interpretação: são 100% Malvasia de Colares cultivados em solo argilo-calcário, com fermentação em barrica, dez meses de estágio sobre as borras totais e mais 15 meses de amadurecimento em garrafa.

São diferentes maneiras de trabalhar a mesma casta dentro de um território pequeno. E talvez seja justamente essa a melhor forma de olhar para a casta hoje: uma variedade com raízes profundas na história, mas que ainda encontra espaço para novas interpretações.

Foi por essa história que ela chegou à Cellar

É esse tipo de história que buscamos quando um novo produtor chega à curadoria da Cellar. Não apenas uma uva diferente, mas uma variedade que carrega consigo um território, uma forma particular de cultivo e uma trajetória que ainda pode ser percebida no vinho.

A Quinta de San Michel integra o nosso portfólio com rótulos de Malvasia de Colares e Arinto, classificados como Vinho Regional Lisboa (IG Lisboa), duas variedades que permitem conhecer diferentes expressões da viticultura de Sintra.

Primeiro, vem a história do território: a areia, a influência do Atlântico e as vinhas em pé-franco que resistiram à filoxera. Depois, vem a taça e a possibilidade de perceber como esse território continua sendo interpretado por quem faz vinho ali.

Acesse o site da Cellar Vinhos para conhecer os rótulos e descobrir a Malvasia de Colares.

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